uma língua que a dor parece falar com mais facilidade do que a felicidade.
não quero multidões-
eu tinha tanta gente, agora tenho tão pouca gente. tantos nomes, tantas conversas, tantas promessas dispersas. tenho-te a ti, e amo-te, sim, mas não quero que o meu mundo acabe aqui. preciso de alguém para chamar, de alguém que queira ficar, de alguém que apareça sem eu ter de implorar. e preciso dela. catorze anos não cabem numa mensagem esquecida, nem numa amizade que se torna despedida. não quero multidões, quero ligações. não quero presença por obrigação, quero alguém que fique por vontade e coração. ...
sofia.
sofia. há catorze anos que existimos uma na outra. e agora, não sei se existimos na mesma medida. mandei mensagem. ficou lá. liguei. ficou lá também. depois vejo-te a rir noutras fotografias, a ocupar stories, a viver perfeitamente sem a parte de mim que costumava caber nos teus dias. e talvez seja isso que mais me assusta. não o perder-te de repente, mas só conseguir assistir enquanto a tua ausência se torna normal. ...
"pôr a carroça à frente dos bois."
“pôr a carroça à frente dos bois.” há quem diga que é andar ao contrário. mas quem é que decidiu qual é o lado certo de uma coisa que ainda nem começou? às vezes quero tanto chegar que me esqueço de sair. faço planos para o fim antes de saber o princípio. construo a janela antes da parede. escrevo a última palavra e depois procuro um poema para a merecer. ...
não te escrevi
não te escrevi a ti nem à pessoa que acha que uma rapariga deve saber ouvir mas não precisa de saber dizer não te escrevi a quem fecha portas e chama isso de proteção nem a quem corta asas e chama a isso educação não te escrevi para quem quer versos bonitos desde que não tragam perguntas pelo caminho escrevo para quem olha para uma palavra e não pergunta primeiro se ela está no lugar certo ...
nem todos os olhos
o que eu escrevo não nasceu para agradar a todos os olhos nem para todos os ouvidos ficar um poema meu nunca será para quem pensa que uma rapariga deve saber calar mas não precisa de aprender a escrever, sonhar, perguntar não será para quem chama “demais” à voz de quem quer crescer nem para quem confunde ser educada com nunca responder não escrevo para quem quer flores mas arranca as suas raízes ao passar nem para quem pede liberdade sem deixar ninguém respirar ...
Antes de fechar
Cada palavra aproxima-se de outra, criam uma ligação através do som, mesmo quando o verso fica incompleto.
politquices- pt4
há sempre um barco no jornal, mesmo quando o mar está calmo, uma mala vira ameaça, um sotaque vira alarme, e o medo aprende a falar por nós. mandam fechar as janelas contra quem chega da rua, mas deixam abertas as portas por onde entra, há anos, aquilo que ninguém denúncia. na mesa, discute se fronteiras, como se a moral tivesse alfândega, como se o respeito pedisse passaporte, como se a violência soubesse distinguir chegada de pertença. ...
politiquices- pt3
uma chave não serve se já levaram a porta, um mapa não serve se já levaram a rua, e “casa” não cabe num comunicado. disseram que era segurança, palavra bonita, essa. cabe num discurso, cabe numa farda, não cabe debaixo dos destroços. há homens que chamam linha à fronteira porque nunca tiveram de pará-la, há homens que chamam alvo a uma janela porque nunca tiveram de olhar para dentro dela. ...
politiquices- pt2
Na rua, uma mulher passa por mim com as chaves entre os dedos. Não sei se ela sabe que eu reparei. Talvez também tenha herdado isso. Há coisas que as meninas aprendem antes de aprenderem a escrever. Não vás por ali, não olhes assim, manda mensagem quando chegares, não fiques sozinha, não confies demasiado. Depois crescem e chamam-lhes prudentes. Ninguém chama medo ao medo quando ele é feminino. Em casa, o meu pai pergunta se eu já comi. ...