[{"content":"eu escrevo porque há coisas dentro de mim que não sabem sair de outra maneira. e eu não sei falar delas.\nse tento dizer “estou triste”, parece pouco.\nparece mentira.\nmas se escrevo sobre uma casa vazia, sobre uma parede a desfazer-se lentamente, sobre uma coisa qualquer a raspar por dentro da minha cabeça.\naí sim.\naí parece que alguém percebeu, e eu odeio isso.\nodeio que a dor seja tão boa com palavras.\nque a felicidade venha até mim com as mãos cheias e eu não saiba o que fazer com ela.\nconsigo escrever coisas felizes, consigo.\nmas ficam bonitas de uma maneira limpa, arrumada, morta.\nnão têm dentes. não têm nada a raspar as paredes do meu cérebro à procura da próxima palavra.\na tristeza tem.\nela entra em mim e começa a mexer nas coisas.\nvira gavetas, abre portas que eu tinha fechado, arranca letras de sítios onde eu nem sabia que havia linguagem. e eu fico a vê-la trabalhar.\num a. um e. um i.\ncomo se cada vogal tivesse estado escondida dentro de alguma coisa que doeu.\ne depois escrevo. e fica bonito.\nesse é o pior, ficar bonito.\nàs vezes tenho medo\nde estar a começar a confundir o que me dói com aquilo que me dá alguma coisa.\nporque quando estou no fundo as palavras aparecem.\ne quando estou bem tenho de ir procurá-las.\ncomo se a minha cabeça só soubesse fazer poesia quando está escura.\nnão quero precisar da tristeza para escrever.\nmas também não sei quem sou na página quando não tenho nada a sangrar em silêncio.\npassei tanto tempo\na ouvir o que dói\nque agora a felicidade fala comigo e eu acho que é silêncio.\n","permalink":"https://consequencedactions.com/posts/a-l%C3%ADngua-do-fundo/","summary":"uma língua que a dor parece falar com mais facilidade do que a felicidade.","title":"a língua do fundo-"},{"content":"eu tinha tanta gente,\nagora tenho tão pouca gente.\ntantos nomes, tantas conversas,\ntantas promessas dispersas.\ntenho-te a ti, e amo-te, sim, mas não quero que o meu mundo acabe aqui.\npreciso de alguém para chamar, de alguém que queira ficar, de alguém que apareça sem eu ter de implorar.\ne preciso dela. catorze anos não cabem numa mensagem esquecida, nem numa amizade que se torna despedida.\nnão quero multidões, quero ligações. não quero presença por obrigação, quero alguém que fique por vontade e coração.\nquero pessoas, não só memórias, não só fotografias, não só histórias.\nquero alguém que fique quando já não houver nada para dizer.\n","permalink":"https://consequencedactions.com/posts/n%C3%A3o-quero-multid%C3%B5es/","summary":"\u003cp\u003eeu tinha tanta gente,\u003cbr\u003e\nagora tenho tão pouca gente.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003etantos nomes, tantas conversas,\u003cbr\u003e\ntantas promessas dispersas.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003etenho-te a ti,\ne amo-te, sim,\nmas não quero que o meu mundo\nacabe aqui.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003epreciso de alguém para chamar,\nde alguém que queira ficar,\nde alguém que apareça\nsem eu ter de implorar.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003ee preciso dela.\ncatorze anos não cabem\nnuma mensagem esquecida,\nnem numa amizade\nque se torna despedida.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003enão quero multidões,\nquero ligações.\nnão quero presença por obrigação,\nquero alguém que fique\npor vontade e coração.\u003c/p\u003e","title":"não quero multidões-"},{"content":"sofia. há catorze anos que existimos uma na outra.\ne agora, não sei se existimos na mesma medida.\nmandei mensagem. ficou lá.\nliguei. ficou lá também.\ndepois vejo-te a rir noutras fotografias, a ocupar stories, a viver perfeitamente sem a parte de mim que costumava caber nos teus dias.\ne talvez seja isso que mais me assusta.\nnão o perder-te de repente, mas só conseguir assistir enquanto a tua ausência se torna normal.\ntu lembras-te de tudo.\ndaquele dia, e daquele, e daquele em que fizemos não sei o quê e rimos tanto que já nem sabemos porquê.\ntu guardaste a nossa história inteira em algum lugar a que eu nunca soube chegar.\neu não. eu esqueço.\ne tenho medo que um dia acabemos e tu sejas a única pessoa que consegue provar que nós alguma vez fomos nós.\nque tu digas “lembras-te?” e eu tenha de procurar a memória dentro da memória.\ntenho medo de nem sequer ser eu a perder-te.\nque sejas tu a fechar a porta, tu a escolher o fim, tu a levar contigo as histórias todas.\ne eu fique do outro lado com catorze anos que já não sei contar.\ntalvez seja injusto ter medo de esquecer antes de sequer perder.\nmas eu penso nisso.\nse um dia deixarmos de ser amigas, quem fica com as nossas tardes? quem fica com as nossas piadas? com os nossos piqueniques? quem sabe onde começou cada “lembras-te?”\ntu.\ne isso assusta-me.\nporque talvez eu não tenha medo de que a nossa amizade acabe. talvez tenha medo de que, quando acabar, a nossa história continue inteira em ti\ne em mim falte alguém para me lembrar que ela aconteceu.\nsofia.\n","permalink":"https://consequencedactions.com/posts/sofia/","summary":"\u003cp\u003esofia.\nhá catorze anos que existimos uma na outra.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003ee agora,\nnão sei se existimos\nna mesma medida.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003emandei mensagem.\nficou lá.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eliguei.\nficou lá também.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003edepois vejo-te\na rir noutras fotografias,\na ocupar stories,\na viver perfeitamente\nsem a parte de mim\nque costumava caber nos teus dias.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003ee talvez seja isso\nque mais me assusta.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003enão o perder-te de repente,\nmas só conseguir assistir\nenquanto a tua ausência\nse torna normal.\u003c/p\u003e","title":"sofia."},{"content":"“pôr a carroça à frente dos bois.”\nhá quem diga que é andar ao contrário.\nmas quem é que decidiu qual é o lado certo de uma coisa que ainda nem começou?\nàs vezes quero tanto chegar que me esqueço de sair.\nfaço planos para o fim antes de saber o princípio.\nconstruo a janela antes da parede.\nescrevo a última palavra e depois procuro um poema para a merecer.\nninguém sabe quem puxa quem.\n","permalink":"https://consequencedactions.com/posts/p%C3%B4r-a-carro%C3%A7a-%C3%A0-frente-dos-bois/","summary":"\u003cp\u003e“pôr a carroça à frente dos bois.”\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003ehá quem diga\nque é andar ao contrário.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003emas quem é que decidiu\nqual é o lado certo\nde uma coisa que ainda nem começou?\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eàs vezes quero tanto chegar\nque me esqueço\nde sair.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003efaço planos para o fim\nantes de saber\no princípio.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003econstruo a janela\nantes da parede.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eescrevo a última palavra\ne depois procuro um poema para a merecer.\u003c/p\u003e","title":"\"pôr a carroça à frente dos bois.\""},{"content":"não te escrevi a ti\nnem à pessoa que acha que uma rapariga deve saber ouvir mas não precisa de saber dizer\nnão te escrevi a quem fecha portas e chama isso de proteção\nnem a quem corta asas e chama a isso educação\nnão te escrevi para quem quer versos bonitos desde que não tragam perguntas pelo caminho\nescrevo para quem olha para uma palavra e não pergunta primeiro se ela está no lugar certo\npara quem deixa uma menina aprender, errar, pensar, crescer, sem lhe pedir desculpa por existir\ne se não gostas do que escrevo, tudo bem\nnem toda a música é feita para o mesmo ouvido, nem toda a verdade é feita para o mesmo coração\nos meus poemas não são para todos\nsão para quem os lê e deixa alguma coisa mudar de lugar.\n","permalink":"https://consequencedactions.com/posts/n%C3%A3o-te-escrevi/","summary":"\u003cp\u003enão te escrevi\na ti\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003enem à pessoa que acha\nque uma rapariga deve saber ouvir\nmas não precisa de saber dizer\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003enão te escrevi\na quem fecha portas\ne chama isso de proteção\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003enem a quem corta asas\ne chama a isso educação\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003enão te escrevi para quem quer versos bonitos\ndesde que não tragam perguntas pelo 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ficar em todas as mãos, em todos os lugares, em todos os olhares\nforam feitas para quem sabe escutar.\n","permalink":"https://consequencedactions.com/posts/nem-todos-os-olhos/","summary":"\u003cp\u003eo que eu escrevo\nnão nasceu para agradar\na todos os olhos\nnem para todos os ouvidos ficar\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eum poema meu nunca será para quem pensa\nque uma rapariga deve saber calar\nmas não precisa de aprender a escrever,\nsonhar, perguntar\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003enão será para quem chama “demais”\nà voz de quem quer crescer\nnem para quem confunde ser educada\ncom nunca responder\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003enão escrevo para quem quer flores\nmas arranca as suas raízes ao passar\nnem para quem pede liberdade\nsem deixar ninguém respirar\u003c/p\u003e","title":"nem todos os olhos"},{"content":"a rima não acaba quando a palavra acaba\nfica no ar a pairar\n\u0026ldquo;longe\u0026rdquo; toca em \u0026ldquo;onde\u0026rdquo; \u0026ldquo;silêncio\u0026rdquo; encontra \u0026ldquo;tempo\u0026rdquo; e ninguém manda parar\nnão é preciso fechar basta aproximar\nporque talvez rimar seja só encontrar um som perdido noutro lugar\n","permalink":"https://consequencedactions.com/posts/antes-de-fechar/","summary":"Cada palavra aproxima-se de outra, criam uma ligação através do som, mesmo quando o verso fica incompleto.","title":"Antes de fechar"},{"content":"há sempre um barco no jornal, mesmo quando o mar está calmo, uma mala vira ameaça, um sotaque vira alarme, e o medo aprende a falar por nós.\nmandam fechar as janelas contra quem chega da rua, mas deixam abertas as portas por onde entra, há anos, aquilo que ninguém denúncia.\nna mesa, discute se fronteiras, como se a moral tivesse alfândega, como se o respeito pedisse passaporte, como se a violência soubesse distinguir chegada de pertença.\nchamam invasão a quem procura abrigo, mas há invasões que não atravessam mares. entram pela chave de casa, sentam-se à mesa, e sabem exatamente onde guardar o silêncio.\ntalvez o problema nunca tenha sido quem bate à porta, mas quem, cá dentro, aprendeu que uma porta fechada também pode ser uma boca fechada.\n","permalink":"https://consequencedactions.com/posts/politquices--pt4/","summary":"\u003cp\u003ehá sempre um barco no jornal,\nmesmo quando o mar está calmo,\numa mala vira ameaça,\num sotaque vira alarme,\ne o medo aprende a falar por nós.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003emandam fechar as janelas\ncontra quem chega da rua,\nmas deixam abertas as portas\npor onde entra, há anos,\naquilo que ninguém denúncia.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003ena mesa, discute se fronteiras,\ncomo se a moral tivesse alfândega,\ncomo se o respeito pedisse passaporte,\ncomo se a violência soubesse\ndistinguir chegada de pertença.\u003c/p\u003e","title":"politquices- pt4"},{"content":"uma chave não serve se já levaram a porta, um mapa não serve se já levaram a rua,\ne “casa” não cabe num comunicado.\ndisseram que era segurança, palavra bonita, essa. cabe num discurso, cabe numa farda, não cabe debaixo dos destroços.\nhá homens que chamam linha à fronteira porque nunca tiveram de pará-la, há homens que chamam alvo a uma janela porque nunca tiveram de olhar para dentro dela.\nentretanto, alguém procura documentos, um apelido, uma fotografia, qualquer coisa que prove que aquela pessoa existiu antes de existir a notícia.\ndisseram que a casa estava vazia, mas deixaram os pratos na mesa, o casaco atrás da porta, o nome ainda escrito na caixa do correio, há vazios que têm demasiadas provas.\ndepois vieram os mapas com a precisão de quem nunca esteve lá,\nendireitaram ruas, apagaram nomes,\npuseram uma linha onde havia uma infância, e chamaram fronteira ao que já era ferida.\n","permalink":"https://consequencedactions.com/posts/politiquices--pt3/","summary":"\u003cp\u003euma chave não serve\nse já levaram a porta,\num mapa não serve\nse já levaram a rua,\u003cbr\u003e\ne “casa” não cabe num comunicado.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003edisseram que era 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algum lugar onde nunca terão de viver.\nEles também têm filhos.\nTalvez também lhes perguntem se já comeram. Talvez durmam.\nÉ isso que mais me assusta. A facilidade com que uma pessoa pode continuar a ser pessoa depois de fazer desaparecer\na vida de outra.\nNo meu telemóvel há vídeos de crianças a segurar coisas que parecem demasiado pesadas para mãos tão pequenas.\nDepois desligo.\nPorque tenho de estudar, porque amanhã tenho escola, porque alguém me chamou, porque a minha vida continua.\nE sinto vergonha de a continuar quando a vida de alguém acabou.\nMas também sei que a culpa não é forma de solidariedade.\nEntão fico. Olho por mais um segundo. Não porque isso vá salvá-las. Só porque não quero que desapareçam duas vezes.\nÀ noite, vejo anúncios de coisas que não sabia querer.\nUma mala, um perfume, uma vida nova por 49,99€.\nÉ engraçado como o capitalismo aprendeu a falar como uma mãe, tu mereces isto.\nE talvez eu mereça. Talvez toda a gente mereça.\nUma casa sem medo, comida sem culpa, tempo que não tenha de ser vendido, um corpo que não seja público, um país que não seja uma pergunta.\nMas ensinaram-nos a desejar em tamanhos pequenos.\nUm quarto maior, um salário melhor, uma cara mais bonita, um homem que não grite.\nComo se a justiça fosse ter uma versão ligeiramente melhor da mesma prisão.\nTenho dezasseis anos, ainda não sei muito bem como mudar o mundo.\nÀs vezes mal consigo mudar de opinião sem ter medo de parecer estúpida.\nMas talvez seja por isso\nque ainda consigo perguntar:\nquem decidiu que isto era normal?\nQuem ganhou quando nós aprendemos a chamar necessidade ao que nos faltava?\nQuem ensinou as meninas a ter medo dos homens e ensinou os homens a ter medo de parecer fracos?\nQuem desenhou a fronteira e depois chamou terrorista à pessoa que nasceu do outro lado?\nQuem ficou bilionário enquanto alguém procurava o nome da própria família debaixo de uma casa?\nNão tenho respostas bonitas.\nTenho dezasseis anos.\nTenho um quarto, um caderno, uma família que amo e uma raiva que ainda estou a aprender a transformar em alguma coisa que não seja apenas barulho.\nTalvez escrever seja isso? Não conseguir abrir a porta mas recusar-me a fingir que ela não existe.\n","permalink":"https://consequencedactions.com/posts/politiquices--pt2/","summary":"\u003cp\u003eNa rua, uma mulher passa por mim\ncom as chaves entre os dedos.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eNão sei se ela sabe\nque eu reparei.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eTalvez também tenha herdado isso.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eHá coisas que as meninas aprendem\nantes de aprenderem a escrever.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eNão vás por ali,\nnão olhes assim,\nmanda mensagem quando chegares,\nnão fiques sozinha,\nnão confies demasiado.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eDepois crescem\ne chamam-lhes prudentes.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eNinguém chama medo\nao medo quando ele é feminino.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eEm casa, o meu pai pergunta se eu já comi.\u003c/p\u003e","title":"politiquices- pt2"},{"content":"Às vezes penso que nasci demasiado tarde para acreditar nas promessas, e demasiado cedo para desistir delas.\nA minha mãe guarda sacos dentro de outros sacos.\nNão por serem bonitos. Porque podem dar jeito.\nHá uma espécie de inteligência em não deitar fora quando se aprendeu que tudo pode fazer falta.\nEu herdei isso dela.\nGuardo mensagens que nunca vou reler. Roupas que já não visto. Pessoas que já me fizeram mal. Pequenas culpas que não sei de quem eram antes de serem minhas.\nTalvez seja isto que querem dizer quando dizem economia.\nAprender a conservar o que nos deram e chamar-lhe escolha.\n","permalink":"https://consequencedactions.com/posts/politiquices--pt1/","summary":"\u003cp\u003eÀs vezes penso que nasci demasiado tarde\npara acreditar nas promessas,\ne demasiado cedo\npara desistir delas.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eA minha mãe guarda sacos\ndentro de outros sacos.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eNão por serem bonitos.\nPorque podem dar jeito.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eHá uma espécie de inteligência\nem não deitar fora\nquando se aprendeu que tudo pode fazer falta.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eEu herdei isso dela.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eGuardo mensagens que nunca vou reler.\nRoupas que já não visto.\nPessoas que já me fizeram mal.\nPequenas culpas\nque não sei de quem eram\nantes de serem minhas.\u003c/p\u003e","title":"politiquices- pt1"},{"content":"I learned that capital means money, then learned to capitalize my name, as though a person becomes worth more by learning where their letters should stand.\nCapital city. Capital punishment. Capital gain.\nStrange little family of words, one builds, one takes, one kills.\nAnd somewhere between them, a girl is taught to become capita, to make herself valuable, legible, marketable enough to be mistaken for safe.\nSo I learned the price of things before I learned their worth.\nI learned that interest grows when you leave it alone, that debt is only a promise with teeth, that some people call possession love when the paperwork is written neatly enough.\nNow I keep my name lowercase. Not because I am less.\nBecause I refuse to let a letter become a landlord.\n","permalink":"https://consequencedactions.com/posts/capital/","summary":"\u003cp\u003eI learned that capital means money, then learned to capitalize my name,\nas though a person becomes worth more\nby learning where their letters should stand.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eCapital city.\nCapital punishment.\nCapital gain.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eStrange little family of words,\none builds,\none takes,\none kills.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eAnd somewhere between them,\na girl is taught to become capita,\nto make herself valuable, legible,\nmarketable enough to be mistaken for safe.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eSo I learned the price of things\nbefore I learned their worth.\u003c/p\u003e","title":"Capital"},{"content":"Books and women share a spine.\nOne is judged by how well it holds together. The other by how long it can.\nWe call them well-read well-bread well-bound,\nironic how every compliment sounds like a way to keep something closed.\nA bent page becomes a bookmark. A bent woman becomes a warning.\nI wonder how many of us mistook breaking for opening.\nOr whether we were simply taught, that a cracked spine is easier to forgive on a book, than on a woman.\n","permalink":"https://consequencedactions.com/posts/spine/","summary":"\u003cp\u003eBooks and women share a spine.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eOne is judged by how well it holds together.\nThe other by how long it can.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eWe call them\nwell-read\nwell-bread\nwell-bound,\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eironic how every compliment sounds like a way to keep something  closed.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eA bent page\nbecomes a bookmark.\nA bent woman\nbecomes a warning.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eI wonder\nhow many of us mistook\nbreaking\nfor opening.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eOr whether we were simply taught,\nthat a cracked spine is easier to forgive on a book,\nthan on a woman.\u003c/p\u003e","title":"Spine-"},{"content":"I have turned entire cities into footnotes.\nI didn’t forget them, I remembered them incorrectly, that’s why.\nMemory has terrible punctuation. It keeps putting commas where people left, and full stops where they came back.\nI’ve spent years editing places that never asked to be rewritten.\nThe original still exists. I’m just no longer its author.\n","permalink":"https://consequencedactions.com/posts/footnote/","summary":"\u003cp\u003eI have turned entire cities\ninto footnotes.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eI didn’t forget them, I remembered them incorrectly, that’s why.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eMemory has terrible punctuation.\nIt keeps putting commas where people left,\nand full stops where they came back.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eI’ve spent years editing places\nthat never asked to be rewritten.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eThe original still exists.\nI’m just no longer its author.\u003c/p\u003e","title":"Footnote-"},{"content":"“não há pior desgraça que cego em Granada.”\nMy grandfather hands me the sentence like it\u0026rsquo;s older than both of us.\nBlind.\nFunny how the word fits over so many eyes.\nThe ones that read without looking.\nThe ones that look without seeing.\nI used to think a poem had to grow.\nNow I think it has to erode.\nChip away at the noise\nuntil what’s left could have been hidden inside the stone all along.\n","permalink":"https://consequencedactions.com/posts/blind-in-granada/","summary":"dedicado ao meu avô.","title":"Blind in Granada-"},{"content":"Nunca tive medo de falar.\nMas cedo percebi que a minha voz chegava aos ouvidos dos outros com um sotaque que eu nunca escolhi.\nAs palavras saíam iguais.\nApenas mudava quem as segurava.\nAprendi então que há frases que vestem corpos antes de vestirem sentido.\nA mesma certeza, noutra boca, era firmeza.\nNa minha, pedia desculpa antes de terminar.\nChamaram temperamento ao que noutros sempre foi convicção.\nE eu continuei a falar.\nNão para levantar a voz, mas para provar que nenhuma palavra nasce com género.\nSó o silêncio é que aprende a distingui-las.\n","permalink":"https://consequencedactions.com/posts/gram%C3%A1tica-sexual/","summary":"Há frases que vestem corpos antes de vestirem sentido.","title":"Gramática Sexual."},{"content":"As paredes sabem o meu tamanho, medem o passo antes de eu passar. Chamam-lhe ordem. Eu estranho quem vive sem nunca duvidar.\nEnsinaram-me a baixar os olhos, a não fazer muito barulho. Como se os sonhos, quando são enormes, devessem caber dentro do orgulho.\nHá portas feitas para fechar, não porque falte a chave ou a mão, mas porque alguém decidiu chamar destino à própria prisão.\nVejo janelas cheias de céu que ninguém ousa atravessar. O medo veste sempre um véu que aprende cedo a disfarçar.\nMas basta um corpo recusar o peso antigo da obediência, para uma parede começar a esquecer o nome da violência.\nPorque nenhum silêncio é lei, nenhuma corrente é natural. Quem nasceu livre, eu bem sei, não cabe inteiro num mural.\nE quando a voz romper o chão, mais alta do que o opressor, verão que toda a opressão tem medo de quem perde o medo.\n","permalink":"https://consequencedactions.com/posts/as-paredes-aprendem/","summary":"\u003cp\u003eAs paredes sabem o meu tamanho,\nmedem o passo antes de eu passar.\nChamam-lhe ordem. Eu estranho\nquem vive sem nunca duvidar.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eEnsinaram-me a baixar os olhos,\na não fazer muito barulho.\nComo se os sonhos, quando são enormes,\ndevessem caber dentro do orgulho.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eHá portas feitas para fechar,\nnão porque falte a chave ou a mão,\nmas porque alguém decidiu chamar\ndestino à própria prisão.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eVejo janelas cheias de céu\nque ninguém ousa atravessar.\nO medo veste sempre um véu\nque aprende cedo a disfarçar.\u003c/p\u003e","title":"As Paredes Aprendem"},{"content":"Nunca provei do vinho a embriaguez, nem vi o mundo a rodopiar sem chão, mas conheci por força de paixão, a mais amarga e funda lucidez.\nFoi o teu nome a dar-me insensatez, a incendiar-me o peito e a razão, e ao despertar, sem ti, na solidão, pesava a alma mais do que uma vez.\nDizem que o vinho passa com a aurora, que a água e o tempo o levam para o mar, o amor, porém, demora-se por dentro.\nDeixa um silêncio onde a voz namora, um gosto que não sabe abandonar. Nunca bebi, mas sei o que é o tormento.\n","permalink":"https://consequencedactions.com/posts/ressaca/","summary":"(amorosa)","title":"Ressaca"},{"content":"I am a pocket of noise pretending to be a person and it is collapsing like bad drywall. I peel myself back and there\u0026rsquo;s nothing but layers, layers and layers, old skin, newer skin, paperwork of cells stacked like receipts that say I bought myself yesterday and the day before and the day before that. I touch my arm and it answers with the same hollow feeling as when you press a thumb into a bruise: familiar, then gone. familiar, then gone. familiar, then gone.\nWho put these words in my mouth? i say “i” and the mouth obeys, but who owns the “i”? It\u0026rsquo;s a trick. a mirror with every shard showing a different version of the face, each one arguing for tenancy. one says it remembers the childhood friend. one remembers the last fight. one remembers the exact taste of the lime i never ate. they all shout at once and i can\u0026rsquo;t decide which memory gets to be me today. Maybe none of them have a lease.\nI imagine cutting out a piece of myself like cutting out a page from a book. I tear it, this thought that used to be whole, out, and watch it float away like confetti. Someone else picks it up, glues it into their own volume, and calls themselves whole. Who decided that continuity is an owner’s manual? Who decided a name is a lock on an empty room?\nSometimes I stand very still and try to feel the seam where yesterday meets now. It\u0026rsquo;s like running a fingernail along a jagged scar and finding instead of scar tissue a tiny door that opens onto another person’s kitchen. That person is making coffee with my hands. They hum a song I hummed when I was five, but the lyrics belong to a stranger. I want to scream because the engine of me keeps swapping parts and the driver’s still asleep in the backseat.\nmy thoughts are luggage on a carousel, looping the same baggage claim forever. pick one up, it\u0026rsquo;s lighter than you remember. put it down, someone else has already replaced the label. memories become museum exhibits i can visit but not live in. I touch them and they flake. I press my palm to my chest and expect a heartbeat to answer “this is me”, but the drum inside is a rental, a tempo borrowed from a playlist marked “temporarily available.”\nif identity is a house, someone’s renovating nonstop and forgot to tell me. walls move. floors are swapped. The portrait over the fireplace is replaced weekly into a different smile that looks suspiciously like mine, but greyer around the eyes. i keep sweeping, painting, nailing things in place like a carpentry addict, but the nails bend into questions. The house becomes a hall of mirrors whose reflections have unionized and are demanding separate contracts.\nThere\u0026rsquo;s a voice that keeps insisting on permanence, that whispers anchors and continuity and \u0026ldquo;you are,\u0026rdquo; like a mantra you repeat at the bottom of the sea. I try to believe it. I clinch against the current. but the ocean presses in, cell by cell, tide by tide, and the whisper is diluted into static. I begin to think the self is an accumulation of small lies we tell to make the wind stop complaining.\nI am unraveling like a sweater snagged on time’s finger; every tug is a new me. one thread says compassion, one thread says hunger, one thread says yesterday’s coffee. They spool out across the floor and I watch the floor brighten, then dim, then become some other room. I laugh, but the laugh is borrowed too. it echoes and comes back with a different accent.\nMaybe the point is not to be the same. Maybe the point is to be a sequence of impressive impersonations. or maybe, maybe, i am just a pile of spare parts with an overambitious name stitched on for identification, a label that reads: temporary owner. I keep checking it as if that will make the letters hold. they don’t. the glue peels. The label floats away on a breeze of molecules that used to be mine and now are, inconveniently, not. I want a map. I want coordinates to where the \u0026ldquo;i\u0026rdquo; is supposed to live. but maps are made for places that don’t move. I am all movement. I am a collection of replacements arguing for amnesty. I am a carnival act of continuity, a magician with empty sleeves. I shout and the shout boomerangs back as someone else’s echo. I stomp and the floorboards reply with different footsteps. I am doing a terrible job of being one thing, and yet here I am, doing it, patchwork and all, like a stubborn machine that refuses to admit it’s been reassembled.\nif being is only ever a temporary invoice, then maybe the only honest act is to stop pretending the invoice will ever be permanent. Maybe the only honest act is to laugh until the seams finally give and something new spills out, messy, furious, unowned, incandescent, and no one can point and say, \u0026ldquo;that’s the same as before.\u0026rdquo; Maybe that’s the most sane thing left: to accept the crazy, to accept the constant theft, to accept that I am nothing but a procession of borrowed mornings pretending to be a continuous life.\n","permalink":"https://consequencedactions.com/posts/all-noise/","summary":"like cutting a page from a book.","title":"All noise."},{"content":"Amanhã eu leio isto. Hoje não consigo. Hoje as palavras pesam mais do que deviam, arrastam-se pelo chão do pensamento e fazem eco. Hoje só quero silêncio, aquele que não cura, mas pelo menos adormece.\nAmanhã talvez eu leia isto e ache exagerado, dramático, até bonito de uma forma triste. Amanhã talvez eu tenha mais força, mais luz, mais qualquer coisa que me empurre para fora de mim.\nMas hoje não, hoje não, fico só a olhar para o vazio entre as frases, esse espaço onde o coração se esconde quando não quer ser percebido. Hoje deixo as palavras em repouso, como copos de água na mesa depois de uma noite longa, transparentes, quietas, a espera que alguém as beba.\nAmanhã eu leio isto e, quem sabe, sorrio, ou choro, ou não sinto nada, mas prometo que amanhã volto. Mesmo que seja só para confirmar que ainda me sei ler.\n","permalink":"https://consequencedactions.com/posts/amanh%C3%A3-eu-leio-isto/","summary":"Para uns dias em breve.","title":"Amanhã eu leio isto."},{"content":"Arranco o nome às coisas. Não por lhes querer tirar alguma coisa, pelo contrário. Arranco o nome às coisas para ver o que sobre quando já ninguém as chama. Porque talvez o nome seja a primeira gaiola.\nChamamos árvore. E esquecemo-nos de que ela nunca quis ser árvore, quis crescer.\nChamamos mar.\nComo se uma palavra pudesse conter todos os naufrágios, todos os regressos, todas as pessoas que já choraram de frente para a àgua.\nChamamos amor. E de repente milhões de pessoas usam a mesma palavra para falar de milhões de coisas completamente diferentes.\nDizemos: “é isto.”\nComo se a linguagem tivesse coragem suficiente para apontar para o infinito.\nEu acho que as palavras chegam sempre atrasadas.\nO coração bate. Só depois alguém lhe inventa um nome.\nA dor acontece. Só depois aparece um dicionário a fingir que a entende.\nTalvez seja por isso que escrevo. Não para dar nome às coisas, mas para as desaprender.\nPara as deixar existir sem a violência de terem de caber numa palavra.\nE às vezes penso… Se um dia me arrancarem o nome… quem é que fica?\nPorque talvez eu também tenha passado demasiado tempo a confundir-me com aquilo que me chamam.\nTalvez eu exista antes do meu nome. Antes da primeira palavra que alguém escolheu por mim.\nPor isso, continuo. A arrancar o nome às coisas, não para as destruir.\nMas para as ouvir respirar pela primeira vez.\n","permalink":"https://consequencedactions.com/posts/arranco-o-nome-%C3%A0s-coisas/","summary":"\u003cp\u003eArranco o nome às coisas. Não por lhes querer tirar alguma coisa, pelo contrário.\nArranco o nome às coisas para ver o que sobre quando já ninguém as chama.\nPorque talvez o nome seja a primeira gaiola.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eChamamos árvore. E esquecemo-nos de que ela nunca quis ser árvore, quis crescer.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eChamamos mar.\u003cbr\u003e\nComo se uma palavra pudesse conter todos os naufrágios, todos os regressos, todas as pessoas que já choraram de frente para a àgua.\u003c/p\u003e","title":"Arranco o nome às coisas."},{"content":"Lembro-me bem, como quem ainda insiste, de uma manhã inteira, sem pressa nem fim, o pão a abrir no forno, leve e triste como flor que não sabia ainda de mim.\nAs mãos mediam o mundo na farinha, com gestos que quase eram oração, cada grão criava uma linha a costurar o tempo ao coração.\nNa rua, o riso andava solto ao vento, crianças desenhavam chão e céu, o dia era comprido, sem sofrimento, e o futuro cabia num papel.\nUm cão dormia ao sol, sem despedida, como quem nunca aprendeu a temer, e ali, tão simples, respirava a vida sem pressa alguma de acontecer.\nHavia um homem que regava a terra, falava baixo, como quem crê que a raiz escuta, mesmo em guerra, e guarda histórias que não se vê.\nE uma mulher, à janela, dobrava camisas como quem dobra o dia, em cada gesto, o mundo cabia e ficava, ainda inteiro, no que se repetia.\nAgora, dizem que a rua se perdeu, o nome já não mora nas paredes, o céu esqueceu o azul que era seu e fala em estranhos ruídos, distâncias e sedes.\nAs portas não abrem, cedem ao chão, os passos correm sem direção, como páginas soltas na escuridão de um livro rasgado à mão.\nO homem, talvez, já não rega mais, segura o nada como um vaso partido, a tentar lembrar, nos gestos iguais, o peso antigo de um mundo florido.\nE a mulher, se ainda dobra o que há, dobra o silêncio, frio e sem cor, como se nele coubesse ainda guardar um pequeno resto de algum calor.\nMas às vezes, no meio do que resiste, alguém encontra um retrato no chão, um botão, uma colher, algo insiste, como um sussurro contra a destruição.\nPorque há coisas que recusam morrer, um nome dito com carinho, o cheiro do pão a amanhecer, ou regar o impossível com a mão.\n","permalink":"https://consequencedactions.com/posts/b%C3%A9lico/","summary":"\u003cp\u003eLembro-me bem, como quem ainda insiste,\nde uma manhã inteira, sem pressa nem fim,\no pão a abrir no forno, leve e triste\ncomo flor que não sabia ainda de mim.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eAs mãos mediam o mundo na farinha,\ncom gestos que quase eram oração,\ncada grão criava uma linha\na costurar o tempo ao coração.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eNa rua, o riso andava solto ao vento,\ncrianças desenhavam chão e céu,\no dia era comprido, sem sofrimento,\ne o futuro cabia num papel.\u003c/p\u003e","title":"Bélico."},{"content":"Dizem que o mundo anda ao contrário, e vendem sempre o mesmo cenário, mudam o filtro, o comentário, mas o fundo é igual ao horário.\nDizem-me: “tem calma rapariga, a vida é longa e pede jeito”, mas eu nunca fui muito de pedir licença nem de fazer silêncio ao que me arde no peito.\nE eu falo, mesmo sem convite, mesmo que a voz desafie o limite, porque quem espera pelo sítio certo fica sempre do lado de fora do grito.\nSe a liberdade é só palavra bonita, então que a minha seja mais aflita, mais crua, mais dita e redita, até que alguém a ouça, e a repita.\nNão quero aplausos de ocasião, nem um lugar específico na multidão, quero o erro, quero a contradição, quero a vida fora do guião.\nE se me dizem “vai com cuidado”, respondo “já venho atrasado”, que isto de viver alinhado nunca foi bem o meu fado.\n","permalink":"https://consequencedactions.com/posts/liberdades/","summary":"\u003cp\u003eDizem que o mundo anda ao contrário,\ne vendem sempre o mesmo cenário,\nmudam o filtro, o comentário,\nmas o fundo é igual ao horário.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eDizem-me: “tem calma rapariga,\na vida é longa e pede jeito”,\nmas eu nunca fui muito de pedir licença\nnem de fazer silêncio ao que me arde no peito.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eE eu falo, mesmo sem convite,\nmesmo que a voz desafie o limite,\nporque quem espera pelo sítio certo\nfica sempre do lado de fora do grito.\u003c/p\u003e","title":"Liberdades."},{"content":"há dias em que falo com objetos como se eles guardassem versões minhas, a cadeira sabe onde eu falhei, o espelho conhece as entrelinhas.\no frigorífico guarda silêncios entre luz branca e coisas por dizer, e eu abro a porta sem fome nenhuma só para ver se volto a ser.\no mundo continua funcional, tudo no sítio, tudo normal, mas eu desloco-me um pouco ao lado como um leve erro no final.\ne não é caos nem é loucura, é só uma forma de existir, quando nada parece estranho,\né que começo a desconfiar de mim.\n","permalink":"https://consequencedactions.com/posts/objetos/","summary":"\u003cp\u003ehá dias em que falo com objetos\ncomo se eles guardassem versões minhas,\na cadeira sabe onde eu falhei,\no espelho conhece as entrelinhas.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eo frigorífico guarda silêncios\nentre luz branca e coisas por dizer,\ne eu abro a porta sem fome nenhuma\nsó para ver se volto a ser.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eo mundo 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E eu corro.\nCorro atrás daquilo que sinto como quem corre atrás de um comboio que nunca esteve destinado a apanhar. Porque o problema nunca foi não sentir.\nO problema é sentir demais. É ter oceanos onde me pedem copos de água.\nÉ ter um incêndio inteiro no peito e só conseguir mostrar o fumo.\nE ninguém vê o fogo. Ninguém vê as cidades que ardem. Só eu.\nSó eu sei quantas vezes me sentei ao lado da pessoa que sou e não a reconheci. Porque estou sempre a mudar.\nE dizem isso como quem oferece conforto. \u0026ldquo;Vais mudar.\u0026rdquo; Mas eu não acho reconfortante.\nEu amo esta rapariga. A que existe agora.\nA que chora por coisas pequenas.\nA que se apega demais.\nA que pensa demais.\nA que transforma despedidas em fantasmas\ne silêncios em tempestades.\nEu amo-a. E assusta-me saber que um dia vou olhar para ela como se olha para uma fotografia antiga. Com ternura. Mas de longe. Como se tivesse pertencido a outra vida.\nHá noites em que fico acordada a pensar nisso. Que talvez a maior perda da minha vida não sejam as pessoas que partem. Talvez sejam as versões de mim que nunca voltam.\nA rapariga que fui aos treze. A que fui aos quinze. A que sou hoje. Todas elas morrem devagar. E ninguém faz luto. Ninguém veste preto por quem deixou de ser. Mas eu às vezes faço. Em segredo.\nPorque há versões minhas que mereciam ter ficado mais um bocadinho. E talvez seja por isso que tenho tanto para dizer. Porque sinto que tudo está sempre a escapar. Os dias. As pessoas. As palavras. Eu. E quanto mais a vida passa, mais percebo que não tenho medo de morrer. Tenho medo de não conseguir guardar todas as pessoas que fui antes de me tornar outra vez alguém diferente.\n","permalink":"https://consequencedactions.com/posts/h%C3%A1_qualquer_coisa_em_mim/","summary":"\u003cp\u003eHá qualquer coisa em mim que está sempre a chegar tarde.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eTarde às palavras,\u003cbr\u003e\ntarde às respostas,\u003cbr\u003e\ntarde à versão de mim\u003cbr\u003e\nque os outros já decidiram conhecer. E eu corro.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eCorro atrás daquilo que sinto como quem corre atrás de um comboio que nunca esteve destinado a apanhar. Porque o problema nunca foi não sentir.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003eO problema é sentir demais. 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I don\u0026rsquo;t want to trace the lines I\u0026rsquo;ve already drawn, polish them, correct them, pretend they ever knew where they were going. I want to write forward, blindfolded, barefoot, trusting the stumble as much as the step.\ni want to improvise. to let the words fall out crooked, trembling, alive. I want to be perfect in my imperfection, to make beauty from the accident, to let the story find me mid-sentence, mid-breath, mid-chaos.\nI want to write from memory, not accuracy, from the way things felt, not the way they happened. I want to write as if the past were a rumor, as if the truth were only a version that once existed and no longer matters.\nI don\u0026rsquo;t want to reread. I don\u0026rsquo;t want to fix it. I want the mistakes to stay, to grow roots, to show that I was here, that I was human enough to miss a beat and still call it a song.\nThis is my story, written without rehearsal, without edits, without the burden of perfection. just fragments of me scattered on the page, unfinished, uneven, but real.\n","permalink":"https://consequencedactions.com/posts/before/","summary":"\u003cp\u003eI don\u0026rsquo;t want to read what came before. I don\u0026rsquo;t want to trace the lines I\u0026rsquo;ve already drawn, polish them, correct them, pretend they ever knew where they were going. I want to write forward, blindfolded, barefoot, trusting the stumble as much as the step.\u003c/p\u003e\n\u003cp\u003ei want to improvise. to let the words fall out crooked, trembling, alive. I want to be perfect in my imperfection, to make beauty from the accident, to let the story find me mid-sentence, mid-breath, mid-chaos.\u003c/p\u003e","title":"before"}]