Arranco o nome às coisas.

Arranco o nome às coisas. Não por lhes querer tirar alguma coisa, pelo contrário. Arranco o nome às coisas para ver o que sobre quando já ninguém as chama. Porque talvez o nome seja a primeira gaiola. Chamamos árvore. E esquecemo-nos de que ela nunca quis ser árvore, quis crescer. Chamamos mar. Como se uma palavra pudesse conter todos os naufrágios, todos os regressos, todas as pessoas que já choraram de frente para a àgua. ...

23 de julho de 2026

Bélico.

Lembro-me bem, como quem ainda insiste, de uma manhã inteira, sem pressa nem fim, o pão a abrir no forno, leve e triste como flor que não sabia ainda de mim. As mãos mediam o mundo na farinha, com gestos que quase eram oração, cada grão criava uma linha a costurar o tempo ao coração. Na rua, o riso andava solto ao vento, crianças desenhavam chão e céu, o dia era comprido, sem sofrimento, e o futuro cabia num papel. ...

23 de julho de 2026

Liberdades.

Dizem que o mundo anda ao contrário, e vendem sempre o mesmo cenário, mudam o filtro, o comentário, mas o fundo é igual ao horário. Dizem-me: “tem calma rapariga, a vida é longa e pede jeito”, mas eu nunca fui muito de pedir licença nem de fazer silêncio ao que me arde no peito. E eu falo, mesmo sem convite, mesmo que a voz desafie o limite, porque quem espera pelo sítio certo fica sempre do lado de fora do grito. ...

23 de julho de 2026

objetos

há dias em que falo com objetos como se eles guardassem versões minhas, a cadeira sabe onde eu falhei, o espelho conhece as entrelinhas. o frigorífico guarda silêncios entre luz branca e coisas por dizer, e eu abro a porta sem fome nenhuma só para ver se volto a ser. o mundo continua funcional, tudo no sítio, tudo normal, mas eu desloco-me um pouco ao lado como um leve erro no final. ...

23 de julho de 2026

pequenos trovões

guardo relâmpagos em frascos de vidro, com rótulos tortos de “talvez”, “duvido”, coleciono sombras de passos que não dei e chaves de portas que nunca fechei. há um pássaro elétrico no meu ouvido que canta histórias do que não foi vivido, e um relógio que atrasa só quando eu quero para esticar um segundo até virar hemisfério. planto perguntas no chão da cozinha, regadas a café e a luz meiguinha, e crescem respostas com gosto a metal que dobram a língua num mapa espiral. ...

23 de julho de 2026

Há qualquer coisa em mim

Há qualquer coisa em mim que está sempre a chegar tarde. Tarde às palavras, tarde às respostas, tarde à versão de mim que os outros já decidiram conhecer. E eu corro. Corro atrás daquilo que sinto como quem corre atrás de um comboio que nunca esteve destinado a apanhar. Porque o problema nunca foi não sentir. O problema é sentir demais. É ter oceanos onde me pedem copos de água. ...

20 de julho de 2026

Riimas

Entre linhas presas e versos soltos, caminho num fio que não vejo ao certo. Dizem-me: “mede as sílabas, conta os pontos”, mas o meu peito bate fora do verso. Quero rimar como o vento que passa, sem par nem ordem, só som e verdade, mas pedem que alinhe palavra com palavra, como se a alma coubesse na metade. O avô fala de forma de tradição, de ecos antigos que nunca se perdem, e eu oiço, há peso na sua razão, mas há fogos em mim que não obedecem. ...

20 de julho de 2026

before

I don’t want to read what came before. I don’t want to trace the lines I’ve already drawn, polish them, correct them, pretend they ever knew where they were going. I want to write forward, blindfolded, barefoot, trusting the stumble as much as the step. i want to improvise. to let the words fall out crooked, trembling, alive. I want to be perfect in my imperfection, to make beauty from the accident, to let the story find me mid-sentence, mid-breath, mid-chaos. ...

18 de julho de 2026