eu escrevo porque há coisas dentro de mim
que não sabem sair de outra maneira.
e eu não sei falar delas.
se tento dizer
“estou triste”,
parece pouco.
parece mentira.
mas se escrevo sobre uma casa vazia,
sobre uma parede a desfazer-se lentamente,
sobre uma coisa qualquer
a raspar por dentro da minha cabeça.
aí sim.
aí parece que alguém percebeu, e eu odeio isso.
odeio que a dor seja tão boa com palavras.
que a felicidade venha até mim
com as mãos cheias
e eu não saiba o que fazer com ela.
consigo escrever coisas felizes, consigo.
mas ficam bonitas de uma maneira limpa,
arrumada,
morta.
não têm dentes.
não têm nada a raspar as paredes do meu cérebro
à procura da próxima palavra.
a tristeza tem.
ela entra em mim
e começa a mexer nas coisas.
vira gavetas, abre portas que eu tinha fechado, arranca letras de sítios onde eu nem sabia que havia linguagem.
e eu fico a vê-la trabalhar.
um a.
um e.
um i.\
como se cada vogal tivesse estado escondida
dentro de alguma coisa que doeu.
e depois escrevo.
e fica bonito.
esse é o pior,
ficar bonito.
às vezes tenho medo\
de estar a começar a confundir
o que me dói
com aquilo que me dá alguma coisa.
porque quando estou no fundo
as palavras aparecem.
e quando estou bem
tenho de ir procurá-las.
como se a minha cabeça
só soubesse fazer poesia
quando está escura.
não quero precisar da tristeza
para escrever.
mas também não sei quem sou na página
quando não tenho nada a sangrar
em silêncio.
passei tanto tempo
a ouvir o que dói
que agora a felicidade fala comigo
e eu acho que é silêncio.