Arranco o nome às coisas. Não por lhes querer tirar alguma coisa, pelo contrário. Arranco o nome às coisas para ver o que sobre quando já ninguém as chama. Porque talvez o nome seja a primeira gaiola.

Chamamos árvore. E esquecemo-nos de que ela nunca quis ser árvore, quis crescer.

Chamamos mar.
Como se uma palavra pudesse conter todos os naufrágios, todos os regressos, todas as pessoas que já choraram de frente para a àgua.

Chamamos amor. E de repente milhões de pessoas usam a mesma palavra para falar de milhões de coisas completamente diferentes.

Dizemos: “é isto.”

Como se a linguagem tivesse coragem suficiente para apontar para o infinito.

Eu acho que as palavras chegam sempre atrasadas.

O coração bate. Só depois alguém lhe inventa um nome.

A dor acontece. Só depois aparece um dicionário a fingir que a entende.

Talvez seja por isso que escrevo. Não para dar nome às coisas, mas para as desaprender.

Para as deixar existir sem a violência de terem de caber numa palavra.

E às vezes penso… Se um dia me arrancarem o nome… quem é que fica?

Porque talvez eu também tenha passado demasiado tempo a confundir-me com aquilo que me chamam.
Talvez eu exista antes do meu nome. Antes da primeira palavra que alguém escolheu por mim.

Por isso, continuo. A arrancar o nome às coisas, não para as destruir.

Mas para as ouvir respirar pela primeira vez.