As paredes sabem o meu tamanho,
medem o passo antes de eu passar.
Chamam-lhe ordem.
Eu estranho quem vive sem nunca duvidar.
Ensinaram-me a baixar os olhos,
a não fazer muito barulho.
Como se os sonhos, quando são enormes,
devessem caber dentro do orgulho.
Há portas feitas para fechar,
não porque falte a chave ou a mão,
mas porque alguém decidiu chamar
destino à própria prisão.
Vejo janelas cheias de céu
que ninguém ousa atravessar.
O medo veste sempre um véu
que aprende cedo a disfarçar.
Mas basta um corpo recusar
o peso antigo da obediência,
para uma parede começar
a esquecer o nome da violência.
Porque nenhum silêncio é lei,
nenhuma corrente é natural.
Quem nasceu livre, eu bem sei,
não cabe inteiro num mural.
E quando a voz romper o chão,
mais alta do que o opressor,
verão que toda a opressão
tem medo de quem perde o medo.