Lembro-me bem, como quem ainda insiste, de uma manhã inteira, sem pressa nem fim, o pão a abrir no forno, leve e triste como flor que não sabia ainda de mim.

As mãos mediam o mundo na farinha, com gestos que quase eram oração, cada grão criava uma linha a costurar o tempo ao coração.

Na rua, o riso andava solto ao vento, crianças desenhavam chão e céu, o dia era comprido, sem sofrimento, e o futuro cabia num papel.

Um cão dormia ao sol, sem despedida, como quem nunca aprendeu a temer, e ali, tão simples, respirava a vida sem pressa alguma de acontecer.

Havia um homem que regava a terra, falava baixo, como quem crê que a raiz escuta, mesmo em guerra, e guarda histórias que não se vê.

E uma mulher, à janela, dobrava camisas como quem dobra o dia, em cada gesto, o mundo cabia e ficava, ainda inteiro, no que se repetia.

Agora, dizem que a rua se perdeu, o nome já não mora nas paredes, o céu esqueceu o azul que era seu e fala em estranhos ruídos, distâncias e sedes.

As portas não abrem, cedem ao chão, os passos correm sem direção, como páginas soltas na escuridão de um livro rasgado à mão.

O homem, talvez, já não rega mais, segura o nada como um vaso partido, a tentar lembrar, nos gestos iguais, o peso antigo de um mundo florido.

E a mulher, se ainda dobra o que há, dobra o silêncio, frio e sem cor, como se nele coubesse ainda guardar um pequeno resto de algum calor.

Mas às vezes, no meio do que resiste, alguém encontra um retrato no chão, um botão, uma colher, algo insiste, como um sussurro contra a destruição.

Porque há coisas que recusam morrer, um nome dito com carinho, o cheiro do pão a amanhecer, ou regar o impossível com a mão.