Sou um ruído sem nome, uma febre sem chão,
um vulto que aprendeu a chamar-se “razão”.
Trago a pele do ontem colada à de agora,
e cada vez que me encontro, alguma coisa vai embora.
Digo “eu”, mas quem fala quando a boca diz “eu?”?
Que estranho proprietário é este corpo que me deu?
Há mil vozes no peito, nenhuma sabe calar,
todas dizem “sou tu”, e eu não sei qual escutar.
Tenho memórias em ruínas, retratos sem calor,
rostos que me habitam, mas já não sabem quem sou.
A infância bate à porta, eu não a deixo entrar,
conheço aquela menina, mas não a consigo encontrar.
Ontem deixou-me um nome.
Hoje o nome já mudou.
Amanhã serei outro
que ainda assim dirá: “sou eu que estou”.
Sou casa em demolição, sou parede sem lugar,
um quarto dentro de um quarto que não acaba de mudar.
Preguei meu nome às portas, tentei fazê-lo ficar,
mas as letras desprenderam-se
e começaram a voar.
Sou retrato sobre retrato, sou imagem espelhada
cada reflexo me acusa: “não és tu, és outra desgraçada”
Procura a minha origem, procuro o meu primeiro chão,
mas encontro apenas ecos, a pedirem definição.
As células abandonam-me sem sequer se despedir,
o corpo troca peças enquanto eu tento existir.
Tudo em mim se transforma, tudo insiste em escapar,
e eu continuo a chamar “meu”
ao que nunca pude guardar.
Sou fio preso ao tempo, sou tecido a desfazer,
cada puxão do destino inventa outro ser.
Uma parte quer ternura, outra exige solidão,
uma recorda o que fui, outra nega essa versão.
Eu sou o que fui?
Sou o que vou ser?
Sou o intervalo impossível
entre lembrar e esquecer?
Sou a criança, sou a velha, sou o medo e a coragem,
sou tudo aquilo que ficou perdido durante a viagem.
Sou a voz que me chama, sou aquele que responde,
sou a mulher sem morada
a perguntar onde se esconde.
Quero um mapa do peito.
Quero um ponto, uma direção.
Quero uma coordenada
para prender o coração.
Se amanhã outra voz
usar o meu nome por engano,
se outro rosto me habitar
sem conhecer o meu plano, deixo.
Que leve o que puder.
Que roube o que restar.
Que transforme as minhas ruínas
noutra forma de começar.
Porque eu já não quero ser pedra.
Já não quero permanecer.
Quero ser fogo e quero ser água,
quero mudar para não morrer.
Quero rir-me das minhas costuras,
rasgar o mapa e o contrato,
deixar cair todas as versões
que carreguei como retrato.
E quando finalmente ruir
tudo aquilo que chamei “meu”,
quando cada nome cair,
quando cada espelho disser “não sou eu”,
talvez reste o silêncio?
Talvez reste o chão.
Talvez reste apenas
o peso absurdo
de continuar a ser,
sem saber porquê,
sem saber até quando,
sem saber quem.
E mesmo assim, no meio da ruína, no centro do nada, com todas as minhas versões a gritarem em retirada,
eu digo, quase sem voz, como quem desafia o céu:
eu.
E o eco responde:
eu.
Mas vem de longe.
E não sei
se foi meu.