Nunca tive medo de falar.
Mas cedo percebi que a minha voz chegava aos ouvidos dos outros com um sotaque que eu nunca escolhi.
As palavras saíam iguais.
Apenas mudava quem as segurava.
Aprendi então que há frases que vestem corpos antes de vestirem sentido.
A mesma certeza, noutra boca, era firmeza.
Na minha, pedia desculpa antes de terminar.
Chamaram temperamento ao que noutros sempre foi convicção.
E eu continuei a falar.
Não para levantar a voz, mas para provar que nenhuma palavra nasce com género.
Só o silêncio é que aprende a distingui-las.