Há qualquer coisa em mim que está sempre a chegar tarde.
Tarde às palavras,
tarde às respostas,
tarde à versão de mim
que os outros já decidiram conhecer. E eu corro.
Corro atrás daquilo que sinto como quem corre atrás de um comboio que nunca esteve destinado a apanhar. Porque o problema nunca foi não sentir.
O problema é sentir demais. É ter oceanos onde me pedem copos de água.
É ter um incêndio inteiro no peito e só conseguir mostrar o fumo.
E ninguém vê o fogo. Ninguém vê as cidades que ardem. Só eu.
Só eu sei quantas vezes me sentei ao lado da pessoa que sou e não a reconheci. Porque estou sempre a mudar.
E dizem isso como quem oferece conforto. “Vais mudar.” Mas eu não acho reconfortante.
Eu amo esta rapariga. A que existe agora.
A que chora por coisas pequenas.
A que se apega demais.
A que pensa demais.
A que transforma despedidas em fantasmas
e silêncios em tempestades.
Eu amo-a. E assusta-me saber que um dia vou olhar para ela como se olha para uma fotografia antiga. Com ternura. Mas de longe. Como se tivesse pertencido a outra vida.
Há noites em que fico acordada a pensar nisso. Que talvez a maior perda da minha vida não sejam as pessoas que partem. Talvez sejam as versões de mim que nunca voltam.
A rapariga que fui aos treze. A que fui aos quinze. A que sou hoje. Todas elas morrem devagar. E ninguém faz luto. Ninguém veste preto por quem deixou de ser. Mas eu às vezes faço. Em segredo.
Porque há versões minhas que mereciam ter ficado mais um bocadinho. E talvez seja por isso que tenho tanto para dizer. Porque sinto que tudo está sempre a escapar. Os dias. As pessoas. As palavras. Eu. E quanto mais a vida passa, mais percebo que não tenho medo de morrer. Tenho medo de não conseguir guardar todas as pessoas que fui antes de me tornar outra vez alguém diferente.