Dizem que o mundo anda ao contrário,
e vendem sempre o mesmo cenário,
mudam o filtro, o comentário,
mas o fundo é igual ao horário.

Dizem-me: “tem calma rapariga,
a vida é longa e pede jeito”,
mas eu nunca fui muito de pedir licença
nem de fazer silêncio ao que me arde no peito.

E eu falo, mesmo sem convite,
mesmo que a voz desafie o limite,
porque quem espera pelo sítio certo
fica sempre do lado de fora do grito.

Se a liberdade é só palavra bonita,
então que a minha seja mais aflita,
mais crua, mais dita e redita,
até que alguém a ouça, e a repita.

Não quero aplausos de ocasião,
nem um lugar específico na multidão,
quero o erro, quero a contradição,
quero a vida fora do guião.

E se me dizem “vai com cuidado”,
respondo “já venho atrasado”,
que isto de viver alinhado
nunca foi bem o meu fado.