Na rua, uma mulher passa por mim com as chaves entre os dedos.
Não sei se ela sabe que eu reparei.
Talvez também tenha herdado isso.
Há coisas que as meninas aprendem antes de aprenderem a escrever.
Não vás por ali, não olhes assim, manda mensagem quando chegares, não fiques sozinha, não confies demasiado.
Depois crescem e chamam-lhes prudentes.
Ninguém chama medo ao medo quando ele é feminino.
Em casa, o meu pai pergunta se eu já comi.
É uma pergunta pequena.
Mas talvez o amor seja isso: alguém reparar que o teu corpo existe antes de te pedir qualquer coisa.
Fico a pensar nisso quando vejo homens a mandar milhões de pessoas para algum lugar onde nunca terão de viver.
Eles também têm filhos.
Talvez também lhes perguntem se já comeram. Talvez durmam.
É isso que mais me assusta.
A facilidade com que uma pessoa
pode continuar a ser pessoa
depois de fazer desaparecer
a vida de outra.
No meu telemóvel há vídeos de crianças a segurar coisas que parecem demasiado pesadas para mãos tão pequenas.
Depois desligo.
Porque tenho de estudar, porque amanhã tenho escola, porque alguém me chamou, porque a minha vida continua.
E sinto vergonha de a continuar quando a vida de alguém acabou.
Mas também sei que a culpa não é forma de solidariedade.
Então fico. Olho por mais um segundo. Não porque isso vá salvá-las. Só porque não quero que desapareçam duas vezes.
À noite, vejo anúncios de coisas que não sabia querer.
Uma mala, um perfume, uma vida nova por 49,99€.
É engraçado como o capitalismo aprendeu a falar como uma mãe, tu mereces isto.
E talvez eu mereça. Talvez toda a gente mereça.
Uma casa sem medo, comida sem culpa, tempo que não tenha de ser vendido, um corpo que não seja público, um país que não seja uma pergunta.
Mas ensinaram-nos a desejar em tamanhos pequenos.
Um quarto maior, um salário melhor, uma cara mais bonita, um homem que não grite.
Como se a justiça fosse ter uma versão ligeiramente melhor da mesma prisão.
Tenho dezasseis anos, ainda não sei muito bem como mudar o mundo.
Às vezes mal consigo mudar de opinião sem ter medo de parecer estúpida.
Mas talvez seja por isso
que ainda consigo perguntar:
quem decidiu que isto era normal?
Quem ganhou quando nós aprendemos a chamar necessidade ao que nos faltava?
Quem ensinou as meninas a ter medo dos homens e ensinou os homens a ter medo de parecer fracos?
Quem desenhou a fronteira e depois chamou terrorista à pessoa que nasceu do outro lado?
Quem ficou bilionário enquanto alguém procurava o nome da própria família debaixo de uma casa?
Não tenho respostas bonitas.
Tenho dezasseis anos.
Tenho um quarto, um caderno, uma família que amo e uma raiva que ainda estou a aprender a transformar em alguma coisa que não seja apenas barulho.
Talvez escrever seja isso? Não conseguir abrir a porta mas recusar-me a fingir que ela não existe.