uma chave não serve se já levaram a porta, um mapa não serve se já levaram a rua,
e “casa” não cabe num comunicado.

disseram que era segurança, palavra bonita, essa. cabe num discurso, cabe numa farda, não cabe debaixo dos destroços.

há homens que chamam linha à fronteira porque nunca tiveram de pará-la, há homens que chamam alvo a uma janela porque nunca tiveram de olhar para dentro dela.

entretanto, alguém procura documentos, um apelido, uma fotografia, qualquer coisa que prove que aquela pessoa existiu antes de existir a notícia.

disseram que a casa estava vazia, mas deixaram os pratos na mesa, o casaco atrás da porta, o nome ainda escrito na caixa do correio, há vazios que têm demasiadas provas.

depois vieram os mapas com a precisão de quem nunca esteve lá,
endireitaram ruas, apagaram nomes,
puseram uma linha onde havia uma infância, e chamaram fronteira ao que já era ferida.