uma chave não serve
se já levaram a porta,
um mapa não serve
se já levaram a rua,
e “casa” não cabe num comunicado.

disseram que era segurança,
palavra bonita, essa.
cabe num discurso,
cabe numa farda,
não cabe debaixo dos destroços.

há homens que chamam linha à fronteira
porque nunca tiveram de pará-la,
há homens que chamam alvo a uma janela
porque nunca tiveram de olhar para dentro dela.

entretanto, alguém procura documentos,
um apelido, uma fotografia,
qualquer coisa que prove
que aquela pessoa existiu
antes de existir a notícia.

disseram que a casa estava vazia,
mas deixaram os pratos na mesa,
o casaco atrás da porta,
o nome ainda escrito na caixa do correio,
há vazios que têm demasiadas provas.

depois vieram os mapas
com a precisão de quem nunca esteve lá,
endireitaram ruas, apagaram nomes,
puseram uma linha onde havia uma infância,
e chamaram fronteira ao que já era ferida.