há sempre um barco no jornal, mesmo quando o mar está calmo, uma mala vira ameaça, um sotaque vira alarme, e o medo aprende a falar por nós.

mandam fechar as janelas contra quem chega da rua, mas deixam abertas as portas por onde entra, há anos, aquilo que ninguém denúncia.

na mesa, discute se fronteiras, como se a moral tivesse alfândega, como se o respeito pedisse passaporte, como se a violência soubesse distinguir chegada de pertença.

chamam invasão a quem procura abrigo, mas há invasões que não atravessam mares. entram pela chave de casa, sentam-se à mesa, e sabem exatamente onde guardar o silêncio.

talvez o problema nunca tenha sido quem bate à porta, mas quem, cá dentro, aprendeu que uma porta fechada também pode ser uma boca fechada.