sofia. há catorze anos que existimos uma na outra.
e agora, não sei se existimos na mesma medida.
mandei mensagem. ficou lá.
liguei. ficou lá também.
depois vejo-te a rir noutras fotografias, a ocupar stories, a viver perfeitamente sem a parte de mim que costumava caber nos teus dias.
e talvez seja isso que mais me assusta.
não o perder-te de repente, mas só conseguir assistir enquanto a tua ausência se torna normal.
tu lembras-te de tudo.
daquele dia, e daquele, e daquele em que fizemos não sei o quê e rimos tanto que já nem sabemos porquê.
tu guardaste a nossa história inteira em algum lugar a que eu nunca soube chegar.
eu não. eu esqueço.
e tenho medo que um dia acabemos e tu sejas a única pessoa que consegue provar que nós alguma vez fomos nós.
que tu digas “lembras-te?” e eu tenha de procurar a memória dentro da memória.
tenho medo de nem sequer ser eu a perder-te.
que sejas tu a fechar a porta, tu a escolher o fim, tu a levar contigo as histórias todas.
e eu fique do outro lado com catorze anos que já não sei contar.
talvez seja injusto ter medo de esquecer antes de sequer perder.
mas eu penso nisso.
se um dia deixarmos de ser amigas, quem fica com as nossas tardes? quem fica com as nossas piadas? com os nossos piqueniques? quem sabe onde começou cada “lembras-te?”
tu.
e isso assusta-me.
porque talvez eu não tenha medo de que a nossa amizade acabe. talvez tenha medo de que, quando acabar, a nossa história continue inteira em ti
e em mim falte alguém para me lembrar que ela aconteceu.
sofia.